sábado, 27 de março de 2010

Diário de uma adolescente

São Paulo, algum dia de meados do ano 2000

"Querido diário



Aquele diário rosa, de capa florida com um cadeado lembra? Acabaram as folhas dele e eu não tenho onde escrever meus segredos. Tenho que registrar uma coisa: no auge dos meus 15 anos ... putz, eu aparento ter um pouco mais ... estudo e não me preocupo com muita coisa, mas sofro constantes adaptações.
Quando eu era criança, minha mãe me ensinou a ter medo dos meninos, dizia que eu não podia andar com eles, que eram perigosos, se metiam em encrencas e eram briguentos. Vc sabe que as tias da escola me vigiavam e contavam tudo pra minha mãe na hora em que ela ia me buscar. Contavam até quantas vezes eu tinha ido ao banheiro e se tinha comido o lanche de lá. Aquele tempo era dose, não podia sair na rua, não podia fazer trabalho na casa das colegas e só podia ter amizade (quando era menino) com o Rodolfo, que é filho de uma amiga dela e que estudava comigo.
Agora com 15 anos, já no ensino médio e estudando longe de casa mudou tudo, graças a Deus. A primeira coisa que aconteceu foi arrumar amizade com os meninos e aprender a falar os palavrões da moda. Montei um partido político e meu grupo da sala, que de 10 pessoas 7 eram homens que aterrorizam na escola.
Nós éramos modernos demais e pior de tudo, não aprontamos, não matamos aula, nem nada ... mas metemos medo nos outros... acho que é porque ao invés de nos comprimentarmos com um "bom dia", dizemos "anaue", como nos tempos da guerra. Nós sempre tiramos as melhores notas, fazemos os melhores trabalhos... é SEMPRE assim: "quem vem na lousa hoje são: Fernando, Sidney, Paulo Henrique, Euler, Jorge, Jamil, Felipe, Aline, Daniela e ... adivinha? EU". SEMPRE NÓS.
Ali não tinha mais jeito, até na cozinha da escola as tias sabiam quem era cada um. Quando elas descobriram que nós sabiamos que elas levavam lanche pra casa, nós ficamos na melhor: se elas não dessem pra gente o que nós queriamos da cozinha, denunciavamos pra diretora.
E o dia que fizemos um coquetel molotov na sala de aula? Quase que ela foi pro espaço rs ... ficou um trambolho azulado lá.
Até aí parece tudo normal né? Mas as coisas ficaram diferentes, quando eu descobri que esqueceram de ensinar para os outros meninos, que eu sou uma menina e não um objeto."

Nenhum comentário: